segunda-feira, 8 de novembro de 2010

CAMINHADA DA SECA – A FÉ DE UM POVO QUE CRÊ NA SANTIDADE DAS VÍTIMAS DO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DA SECA DE 32 – 28ª CAMINHADA – SENADOR POMPEU - CEARÁ - PEÇA DE TEATRO: CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE 32

Caminhada da Seca de 2009 - Romeiros em Fé - Foto: Mara Paula
No próximo domingo, dia 14/11/2010, como em todo segundo domingo do mês de novembro de cada ano, às 04:30h da manhã, começarão a tocar os sinos da Igreja Matriz de Senador Pompeu (CE), começarão a ser cantados os hinos e a multidão se converterá numa procissão em direção ao Cemitério da Barragem do Patu, a 03 km da Igreja. A Caminhada da Seca completa 28 anos. A primeira liderada por Padre Albino Donat, a 28ª Caminhada, do ano de 2010, liderada por Padre Carlos Roberto. É um momento de fé, de memória, de emoção.


O nome Caminhada da Seca se deve ao fato que ocorreu em 1932, uma das mais terríveis secas da história do Nordeste. A exemplo da Seca de 1915, eternizada por Raquel de Queiroz, em o Quinze, cuja história tem início em Quixadá, onde está um dos primeiros açudes do Nordeste, para combater a Seca,  o  Açude do Cedro. Também a exemplo da Seca de 1877, cuja desgraça dos sertanejos foi denunciada por 
Rodolfo Teófilo, em seu livro: A Fome. 


Caminhada da Seca de 2009 - Na Serra do Patu  - Foto: Mara Paula

Em 1932, o Campo de Concentração do Patu, em Senador Pompeu, era um dos maiores do Estado do Ceará. Segundo matéria jornalística do jornal O Povo, de 20/06/1932, com a manchete: O EFETIVO DOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DOS FLAGELADOS, página 86, da Enciclopédia Municipal de Senador Pompeu, 1ª Edição, assim estavam distribuídos os flagelados:

Carius                                                           28.648
Senador Pompeu                                          16.221
Buriti (Crato)                                               16.000
Ipu                                                                  6.507
Quixeramobim                                               4.542
Fortaleza (02 campos)                                   1.800 (Do Urubu e do Matadouro Modelo)

Segundo o mesmo jornal O Povo, de 20/05/1932, no Campo do Patu, em Senador Pompeu, que começou a ser construído em abril de 1932, matavam diariamente 30 bois, consumiam-se 80 sacos de farinha e 40 sacos de feijão. Mas o que torna o Campo de Concentração de Senador Pompeu tão especial, o mais conhecido?

Caminhada da Seca de 2009 - Na Estrada do Patu - Foto: Mara Paula


Primeiro é importante destacar que a rede ferroviária, que cruzava o Ceará inteiro, de Fortaleza ao Crato, outro ramal de Fortaleza a Crateús, era por onde se enviavam para o interior mercadorias e mais mercadorias, o que nos tempos atuais, efetiva-se através das estradas. Ao mesmo tempo, toda a riqueza do interior, o algodão, era trazida para os portos de Fortaleza, por trem. 


Senador Pompeu tinha posição privilegiada no sertão Central. Importante centro comercial, do qual, inúmeras cidades, num raio de mais de 100 km, dependiam. Depois Senador Pompeu tinha toda a estrutura criada para construção do Açude do Patu, em 1919, inacabado, inicialmente projetado para armazenar 200 milhões de metros cúbicos de água, quase 03 vezes a capacidade atual. A estrutura era composta por vários casarões, casas de taipas, armazéns e o mais estratégico: o trem conseguia chegar até lá, ficando fora da cidade. Sendo fácil tanto transportar flagelados como provisões. Por fim, lá houve a maior quantidade de mortos, por cólera, sendo enterrados às centenas, em cemitério improvisado, em valas comuns. Morreram mais de 1.000 pessoas. Tamanho foi o drama, a dor e o sofrimento, que as almas foram santificadas pelo imaginário popular:

O cemitero é retângulo
Ao pé da Serra Patu
Frente a usina triângulo
Jardim do mandacaru
Cercado dum alvo muro
Todo fincado de cruz
A invadir o futuro
Onde possa existir luz !


Sempre tem velas acesa
Gente pagano promessa
O altar bem simples mesa
Onde a fé logo se  acessa
Cego lá voltou a ver
Mudo aprendeu a falar
Morto voltou a viver
Toda a graça a se alcançar


Pra lá vai a procissão
Pessoas do povo, fiéis
Pés ao milhares no chão
Turistas e menestréis
Cantano salmos e hinos
Da época de trinta e dois
Velhas, homens e meninos
Sob o forte sol algoz...

Além de todos lamentos
No local se vê té luz
Gritos vindos com os ventos
Até já viram Jesus
Muita gente alcançou graça
No cemitero tão triste
Mortos sem nome e da raça
Do tal do home que existe...
                    ( Cordel: A Besta Fera de 32
                             De Valdecy Alves)


Caminhada da Seca de 2009 - Na Estrada do Patu  - Foto: Mara Paula
Hoje o cemitério, patrimônio material adicionado ao sítio histórico, no meio do mato,  é tido como  campo santo visitado por romeiros o ano inteiro. Foi a mortandade cruel dessa gente que ficou no imaginário popular, sendo transmitido oralmente de geração em geração. Não tardou as almas obrarem milagres, tornando-se um santo coletivo por vontade do povo: AS  SANTAS ALMAS DA BARRAGEM! Tal crença albergou-se na fé, na religiosidade, tornando-se patrimônio imaterial do Nordeste. Já os velhos casarões são testemunhas vivas de todo o drama e local onde foram hospedados e de onde administravam o Campo de Concentração do Patu. Patrimônio material do povo brasileiro.

Assim, em Senador Pompeu, ocorreu o maior drama, o maior sofrimento, sobrevivendo a  memória e todo o patrimônio histórico material. Resquício único, pois nada sobrou da Seca de 1877, da Seca de 1915, dos demais campos de concentração da Seca de 32. Na verdade uma espécie de Auschwitz no sertão do Ceará. Um palco da história e testemunha do terror das eras das secas. 

Caminhada da Seca de 2009 - Rua do Conjunto - Foto: Mara Paula
Canudos foi coberta pelas águas de uma barragem. De Caldeirão de Santa Cruz do Deserto sobrou apenas uma casa e uma capela... do Campo de Concentração do Patu, sobraram as histórias das tragédias e um conjunto de casarões, além do cemitério, tornado solo sagrado pelo povo. O cemitério e os casarões, além da caatinga em volta, que deve ser preservada, tudo localizado entre o Rio Patu e a Serra do Patu, tornam-se assim patrimônio do Nordeste, do Brasil, da Humanidade. A exemplo do Coliseu em Roma, que lembra toda a cultura do auge do Império Romano. Tudo de bom, tudo de ruim, tudo inerente a uma realidade social e a um povo

Caminhada da Seca de 2009 - Rua da Lagoa - Foto: Mara Paula

Todos os fatos narrados, de onde nasce toda memória, que deu origem à Caminhada da Seca. Por isso não deixe de comparecer e avisar aos seus contatos para que também compareçam. E toda essa história de vidas, de sofrimentos, de fé... QUE A CAMINHADA DA SECA REPRESENTA.



O CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE 32 - PEÇA TEATRAL NARRANDO A TRAGÉDIA OCORRIDA EM SENADOR POMPEU - ESTREIA 13/11/2010


No próximo dia 12/11/2010, sexta-feira e dia 13/11/2010, sábado, será encenada a peça: CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE 32. No dia 12, no Km 20 e no dia 13/11, sábado, após a missa, em Senador Pompeu, no Salão Paroquial. A peça tem como autor do texto: Valdecy Alves, como diretor: Fram Paulo e como atores membros da  Cia. Engenheiros da Arte e do Grupo Arautos do Bonfim.

É a arte resgatando a história, contando em forma de epopéia um fato relevante da história do Brasil, mantendo viva a memória de uma das maiores tragédias ocorridas nas secas do Nordeste, para entender cada vez mais o presente e obter meios de tecer as estruturas do futuro. Experiências semelhantes: A Paixão de Cristo em Pacatuba (CE), a montagem da Peça sobre a Vida de São Francisco, nas romarias de Canindé (CE), a encenação da batalha entre os cabras de Lampião e o povo de Mossoró, que culminou na expulsão dos cangaceiros, em Mossoró (RN). Tornando mais vivo o teatro, fazendo da cultura forma de inclusão social, mantendo o belo, dando acesso ao grande público a baixo custo. Para se ter uma idéia o ingresso custa apenas R$ 2,00 (dois reais).

                                                     Foto de Washington Alves - Diretor Fram Paulo instruindo atores

Eis um fragmento da Peça, rezado por um dos personagens, que é muito aplaudido:

Pai Nosso dos Flagelados

Pai e mãe nossos
Que estão no céu
Santificados todos os sonhos
Santificadas todas as profecias
Santificada toda utopia
De inclusão e de liberdade!

O pão nosso de cada dia
Que nos foi furtado
Seja feita a vontade de Jesus
Assim na Europa como no Nordeste
Perdoem-nos quando nos deixamos enganar
Perdoem aqueles que nos enganaram
Mas que a justiça puna-os
Mesmo tarda! Mesmo falha!

Não nos deixem
Cair em tentação
De não construirmos nossa Consciência
De não Edificarmos o nosso destino
De  nos omitirmos à   luta
O que é o maior mal
Amém!

Foto de Washington Alves - Atriz Karla Samara - A Beata - Ensaia

Num dos movimentos da Peça, há um encontro entre Nossa Senhora, Padre Cícero e Lampião há a seguinte fala de Nossa Senhora, em meio aos concentrados, que num surto messiânico têm uma visão:

NOSSA SENHORA  Sei que não foi por mal, meu filho! Desrespeito não foi a intenção. Quem canta é Patativa, o poeta popular, o Homero cearense, o Camões dos sertões, que canta as agruras da Seca do 32. A voz do povo nordestino, do povo de Deus! Todo o oceano de pecado da humanidade, afunila-se por este lugar sagrado, toda história humana atravessa no sopé da Serra do Patu, na direção do céu, todos e todas  purificados. Aqui se encontra um portal do paraíso. Abaixo da Serra do Patu dorme a esperança de toda a humanidade. Um dia a Serra se abrirá, em forma de botão de rosa, e pétalas do paraíso se espalharão por toda a Terra, que será um só jardim de paz, fartura, perfume e flores, amém! Escutem minha Beata! .( Retiram-se lentamente – ao longe a voz de Patativa cantando a Triste Partida)

Foto de Washington Alves - Debate dos atores com o autor da peça


Por fim, mais um fragmento da peça, que ocorre na batalha dos trovadores

  
TROVADORA
Seu Mauro sobrevivente
O triste fato narrou
Seu Zacaria inteligente
Muito também contou
Dor, fome, ai, sofrimento
Flagelo,   morte, doença
Tortura, grito, tormento
Temor, angústia descrença

TROVADOR
Certamente não há culpa
Da boa mãe natureza
O real nada desculpa
Do que crê só na moleza
Se os brutos tão a viver
No reino da sequidão
O que se pode dizer
Do homem-pai, revolução ?

TROVADORA
Quisera haver paraíso
Que houvesse também um céu
Pra falar e de improviso
Da história carossel
Pros mortos lá da barragem
Que lá deveriam estar
Vítimas da bandidagem
Das secas do Ceará

Não deixem de ver a peça. No Distrito de Bonfim, Km 20, no dia 12/11, na sede da cidade em Senador Pompeu, sábado, dia 13/11/2010, no Salão Paroquial após a celebração da Missa. Compareçam!

Amanhã será postada matéria completar à presente, tratando da 28ª Caminhada da Seca, que acontecerá no próximo domingo, dia 14/11/2010, manhã de domingo, em homenagem às vítimas do Campo de Concentração da Barragem do Patu. PREPARE-SE PARA LER E COMPARECER!

2 comentários:

Ana Gaúcha _Professora disse...

ohhhhhhhhhhhhhhh
amigo
que textos e fotos interrogativos.

nosso povo nossa gente
nossa fome ou esperança]

em marcha na procissão
com fé e pé na estrada,

bjsssssssssssss
amigo

prazerrrrrrrrrr estar aqui

Caяoℓ Łeaℓ disse...

Seu Blog ta muito legal, parabéns! Mas que tal colocar seu blog com dominio proprio, muito mais facil das pessoas aprenderem seu endereço. Caso tenha interesse entre em contato conosco pelo endereço www.carolleal.com.br.

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